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Publicado em: 21/09/2008

No meu dia-a-dia de trabalho o que mais encontro são pais e filhos desesperados, gritando por socorro, por alguém que lhes dê atenção, enfim, uma luz. Pais ameaçados pelos filhos. Filhos ameaçados pelos pais. Agressões verbais e, às vezes, físicas, de todos os lados, abandono, rejeição aos filhos em virtude do mau comportamento intrafamiliar e na sociedade. Famílias fragmentadas, situação caótica para crianças e adolescentes e seus pais. Qual o remédio, nestes casos, senão o acolhimento provisório em um abrigo, até que se tenha o diagnóstico da situação para que estas crianças e adolescentes possam retornar a rede parental, quando possível.

São vários os motivos dos acolhimentos provisórios de crianças e adolescentes nos abrigos. Conforme o diagnóstico do caso, não resta alternativa e o que era provisório passa para continuado, por tempo indeterminado (artigo 98 – E.C. A). São casos de abuso sexual, violência doméstica, negligência familiar, abandono de incapaz, ameaça de morte na comunidade onde moram os familiares desta criança ou deste adolescente, pelo envolvimento com o tráfico de droga, etc. Nestes casos, não tem como fugir da institucionalização da criança ou do adolescente por um tempo, até que tenha condições de retomar a vida dentro de uma família, quer seja de origem ou substituta. Ela, objetivamente, sai do seio da família onde estava e vai parar numa instituição, num abrigo, no qual será protegida, cuidada e trabalhada até ulterior decisão da Vara da Infância e da Juventude da Comarca.

Contudo, os abrigos já cheios de crianças e adolescentes em situações que demandam medidas de proteção têm que atender os casos de conflito intrafamiliar causados por mau comportamento infanto-juvenil, que deveria ser de responsabilidade da família e de órgãos específicos para atender esta demanda.

Causa-nos espanto o montante de casos de conflitos entre pais e filhos que recebemos diariamente. Pais desesperados com as atitudes dos filhos dentro de casa. Mediante o comportamento inadequado de filhos/as os pais ficam perdidos sem saber o que fazer. De quem é a culpa? Para ameaçar o filho nesta situação de mau comportamento surgem aquelas frases famosas: “vou entregar você ao juiz”, “vou internar você”. Entendam o que estas frases querem dizer exatamente: “vou colocar você num abrigo”, para que possa ser “educado” e ter um comportamento adequado quando retornar para casa. Retorno à família, de preferência por volta dos 18 anos, quando for responsável por seus atos. Assim fica fácil, pois estou me livrando de uma situação passando-a para terceiros. Esquecem que um abrigo não é para casos de comportamentos inadequados, conflitos familiares, imposição de limites, coisas que os pais devem fazer no tempo certo, conforme o crescimento dos filhos.

Normalmente, as mães (quase sempre) chegam dizendo: "não dou conta de meu filho. Ele me agride, não me obedece, usa droga, etc, etc. Não quero mais meu filho. Meus outros filhos e demais parentes também não o querem". Aliás, o atual companheiro ou marido também não o quer. Há conflitos e agressões de todos os lados e ninguém quer assumir esta criança ou adolescente, sequer lhe dá o direito de permanecer em casa. Não há espaço para o/a filho/a naquela família.

Quem ama educa. A educação que falamos aqui é aquela que recebemos dos pais, avós e demais parentes. Muitas das vezes os pais só descobrem que tem um filho/a quando este/a está na adolescência e começam a afrontar os pais e criar problemas dentro de casa. O que fez por ele/a desde os primeiros anos de vida? Faltou alguém na vida daquele ser para educá-lo para a vida. Faltou alguém para falar dos valores humanos, manter um diálogo positivo com ele, dar bons exemplos, impor limites. Você conversa com este/a jovem e logo percebe a situação. Quando conversamos com a mãe, ela jura que é apenas a vitima. Que fez sua parte, mas não sabe o que deu errado. Não há milagre, se a situação foi gerada pela convivência ou ausência familiar é por lá que devemos tentar começar um trabalho. De nada adianta os pais projetarem a situação apenas no filho/a e não assumirem sua parte. A equipe psicossocial deve trabalhar a família inteira para que possa reintegrar futuramente a criança ou adolescente acolhido no abrigo. Deixo claro enquanto profissional que atua em abrigo que esta família deveria recorrer a outras formas de ajuda. Aliás, a família demorou em procurar ajuda e quando o fez procurou a forma mais radical, tentando retirar este/a jovem do convívio familiar. A família deixou de fazer seu papel e se tornou vitima de sua má atuação. Por isso, tantas crianças e adolescentes fazendo vitimas e se tornando vitimas. A mídia mostra os casos mais gritantes e que dão ibope, mas no dia-a-dia de uma instituição de abrigo a coisa é muito comum.

Por isso, a importância dos pais prestarem atenção nos filhos, orientá-los para a vida, impor limites de forma positiva, mas sem tapa. É triste ver um jovem dizendo: “em minha casa quem manda sou eu”. Parece absurdo, mas ouvimos muito esta frase. Virou ditadura dos filhos para com os pais. Onde está a autoridade dos pais, que não precisa ser radical, mas deve existir de forma saudável. Muitos das crianças e adolescentes que atendemos pedem limite, pois foram negligenciados dentro de casa pela família. Nunca ninguém falou de limites para eles. Também é importante saber por onde e com quem andam os filhos. Aquele ditado “diga com quem tu andas que digo quem tu és” é bem verdadeiro, pois os adolescentes assimilam o comportamento do grupo ao qual estão inseridos e o reproduz. Também não passa batido o comportamento que observa ao seu redor na comunidade/sociedade. Muita atenção também para mudança de comportamento. De repente o filho começa apresentar um comportamento que até então não tinha. Muita euforia ou tristeza, fome e outros itens que denotam que alguma coisa não vai bem. Os pais têm que ficar atentos para estes fatos. Tomar cuidado, pois as drogas costumam entrar na vida da juventude de forma sutil, mas causam um grande estrago, não apenas para o usuário e sim para toda família.

É preciso criar os filhos com boas referências/exemplos e com afeto. Proporcionar à criança o direito de desenvolver sua personalidade de forma saudável. Os primeiros anos da vida de um ser humano são muito importantes, pois estão sendo cristalizadas as estruturas da personalidade, conforme conhecemos. Aos poucos devemos colocar limites, pois esta pessoa deve aprender a viver socialmente numa comunidade e na sociedade, enfim. Os pais não devem delegar a terceiros, principalmente aos professores, como ocorre em muitos casos. Dar bons exemplos, não apenas com palavras, mas com atitudes e ações positivas. De nada adiante aconselhar o filho para respeitar as pessoas, não fumar, ter caráter, se nós, adultos, nos comportamos mal e temos atitudes irresponsáveis e contrárias ao que pregamos. Não são apenas palavras, mas atitudes e boas ações que passamos aos filhos. As imagens se fixam com facilidade na mente humana.

Outra coisa é não comparar o filho com aquele elemento de nossa família de quem não gostamos por algum motivo. Aquela história de falar ao filho que ele se parece com fulano ou sicrano é complicada. Muitas vezes esta criança ou adolescente sequer sabe quem é o cidadão ao qual está sendo comparado, mas ouviu o adulto dizer que ele se parece com este fulano que não foi uma boa coisa na vida. Esta frase repetida milhares de vezes vira verdade e acaba sendo fixada na mente da criança, que cresce se achando uma “porcaria”. Depois, haja auto-estima para tentar consertar o estrago. Já ouvi muitos jovens dizendo: minha mãe me acha uma porcaria, pois tenho as mesmas atitudes de fulano. Este fulano na concepção da mãe ou do pai fazia tudo errado. Olhe que comparação mais estapafúrdia. Normalmente, este jovem começará a reproduzir atitudes de acordo com a descrição do cidadão comparado sem a mínima necessidade disso. Assim, surgem os sentimentos negativos a este pai ou a esta mãe, pois a toda hora estão fazendo comparações não aceitas e entendidas pelo filho ou filha.

Criar um filho não é fácil, mas é um desafio que deve ser feito de forma saudável e responsável. Vamos pensar que nossos filhos se parecem conosco em todos os sentidos: na aparência física e nas atitudes também. Porém, acho que todos nós somos capazes de boas obras.

Enfim, acho que a família não precisa tomar atitudes tão radicais em relação ao filho com problema de comportamento, optando por colocá-lo em um abrigo, pois não é o local para atender esta demanda. Na maioria das cidades brasileiras existem os CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, ligados às Secretarias de Saúde (municipais). Normalmente tem atendimento específico para crianças: os CAPS-i, assim como existem os CAPS-Álcool e Droga, etc. Procurem conhecer, pois prestam bons serviços às famílias que necessitam de ajuda.




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