Quando observamos a história da humanidade pelo prisma da música, não podemos deixar de notar que, desde a mais remota antiguidade de que se tem notícia, ela está refletindo o momento histórico.
Desde que nossos ancestrais procuravam cultuar a divindade dentro das cavernas, com instrumentos feitos de tronco de árvore, até os mais sofisticados aparatos eletrônicos feitos hoje, a música continua a acompanhar e refletir os passos da humanidade.
Pena é que as referências foram mudando com o tempo e os valores foram se tornando um tanto quanto equivocados. Enquanto em outros períodos da história se valorizava o conteúdo artístico ou o valor educacional de uma obra, hoje o que se vê em grande parte é apenas a celebração de cifras obtidas com a vendagem da mesma. Há alguns anos, quando eu estudava em uma Escola de Música em São Paulo, um universitário procurou meu professor para fazer com ele uma entrevista sobre o mercado da música no Brasil. Tive a oportunidade de assistir a entrevista e, dali em diante, pude observar mais conscientemente o que acontece.
Uma das perguntas feitas na entrevista foi sobre o que, na opinião dele, levou o mercado musical a tomar esse rumo que tomou e a chegar nesse nível de pasteurização e mediocridade que a música brasileira acabou atingindo. Ele respondeu dizendo que, no final da década de 60, quando trabalhava na orquestra de uma rádio em São Paulo, enquanto aguardava na sala de espera a hora da gravação do programa em que participava, ele viu três rapazes procurando pelo locutor.
A conversea que ele ouviu deles dizia respeito à veiculação de uma gravação na rádio e sobre o custo dessa divulgação. A partir daí, segundo ele, o que se viu foi o aumento progressivo desse tipo de negociação que envolve as partes interessadas, a saber, as gravadoras, emissoras de rádio e TV e, por extensão, todos os envolvidos na indústria fonográfica.
Nascia ali o bom e velho "jabá", que para quem não sabe, é o grande responsável por essa avassaladora marginalização da verdadeira cultura musical brasileira e pela supervalorização da "mediocridade que vende". O "subornador" e o "subornado" acabaram ficando viciados nessa fórmula, e quem paga por isso somos nós e os nossos jovens, pois a nossa cultura verdadeira foi jogada de lado e, consequentemente, ficamos cada vez mais sem identidade cultural.
Mas nem tudo está perdido. Felizmente estamos vendo cada vez mais movimentos que defendem o resgate e a valorização da verdadeira cultura musical brasileira. Devemos acreditar que a nossa riqueza e diversidade cultural é maior e mais forte que esses interesses puramente econômicos. Daí em diante, as coisas vão mudar...