Assino a TVA, que incluiu em sua grade de canais a TV Ideal (canal 70), voltada a assuntos corporativos tais como coaching, carreira, head hunting etc... uma espécie de Você S.A. na TV. O canal é divertido e muitas das coisas apresentadas servem de adubo para acalorados debates durante o happy hour.
E um destes debates é sobre o teatro que envolve o mundo dos negócios.
Em um dos programas, o entrevistado tem menos de 25 anos e, curiosamente, tem opinião formada sobre tudo. Ao ser perguntado onde se vê daqui a 5 anos, responde com convicção que quer ser diretor (de uma empresa onde ele nem trabalha ainda). Outro candidato-entrevistado diz que tem o hábito de ler e que se manter informado é fundamental em sua área, mas ao ser perguntado sobre o conceito de bounderless carreer ou sobre qual é o livro mais importante de Tom Peters, não soube responder, sequer chutar. Chamei esse mis-en-scène de teatro? Circo talvez fosse uma palavra melhor.
E quando você lê mantras e gurus que dizem que o mundo atual é diferente, que o funcionário é senhor de suas escolhas, que as empresas valorizam cada vez mais o capital humano ou que empregadores estão interessados em sua qualidade de vida ou carreira?
Uma história fresquinha: um funcionário de uma multinacional foi promovido a gerente. Aparentemente a promoção demorou para chegar e ele, que já estava mexendo seus pauzinhos, pediu demissão e foi trabalhar em outra multinacional, fornecedora de seu antigo empregador. O diretor que o promoveu descobriu qual era esta nova empresa e ligou para o seu presidente, exigindo que o funcionário fosse demitido, o que aconteceu de imediato.
Cada ambiente tem suas regras, sem dúvida. Frente a um estereótipo de executivo e um candidato cabeludo e tatuado, é natural que o candidato de terno seja escolhido, salvo em casos onde a competência do candidato alternativo seja maior a ponto de anular a concorrência (ou em empresas que atuam em mercados "alternativos"). Discriminação? Talvez. Burrice? Talvez. Mas sem dúvidas, um exemplo simples e claro de uma regra corporativa.
O ponto incômodo é a falta de limites, comum sempre que este mundo é retratado. Você me diz um monte de besteiras e jura fidelidade e eu finjo que acredito. Enquanto publicações celebram a nova era do emprego onde todos têm voz, temos um diretor rancoroso que atropela a ética apenas para se vingar de um ex-funcionário (sem pensar no impacto que esta demissão terá na vida deste ex-funcionário e de seus familiares).
Não espero que empresas e funcionários vivam em uma harmonia inabalável, que papai-noel seja o presidente e a cegonha, a diretora de RH. Mas tenho certeza que um pouco menos de hipocrisia daria mais dignidade aos funcionários e resultados às empresas. Exemplos há, pena que poucos.