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Publicado em: 13/03/2008

Deus deve ter uma paciência divina!

Surgiu hoje a notícia de que uma determinada propaganda veiculada na Ingalterra foi retirada do ar após protestos de católicos. A propaganda de produtos para cabelos mostra algumas mulheres pedindo a Deus que seus cabelos melhorem, como se estivessem orando. Ainda na linha humorística, uma das mulheres pede "que suas amigas morram de inveja de seus cabelos". O órgão regulador proibiu a propaganda por entender que a situação apresentada ofende a fé cristã.

Há cerca de uma semana recebi um e-mail com um abaixo-assinado contra o filme "Corpus Christi" (do qual nunca ouvi falar), que mostraria Jesus tendo relacionamentos homossexuais com seus apóstolos.

E o que estes dois acontecimentos tem a ver um com o outro?

Religiosos em geral são muito politizados quando uma questão conflita com suas crenças. Agitam suas bandeiras, fazem protestos, movem processos e partem para a briga como for possível. Tudo para defender Deus, Jesus ou aquilo no que acreditam.

O grande problema está no fato de eles serem muito bons de discurso, mas serem um zero à esquerda quando chega a hora de deixar as palavras de lado e partir para a ação.

É facílimo unir religiosos para um abaixo-assinado contra um filme imbecil. Agora pergunto: será que estas pessoas tão interessadas em defender os ensinamentos divinos continuariam interessadas se fossem chamadas a contribuir (com trabalho próprio ou mesmo dinheiro) com alguma causa? Estes religiosos politizados demonstrariam a mesma disponibilidade se fossem chamados a ajudar de forma prática uma entidade ou grupo de pessoas?

É muito fácil sair gritando "Jesus é o cara, vamos defendê-lo! Vamos acabar com quem fala mal dele!", mas é muito difícil trazer Seus ensinamentos para a vida prática: pensar no bem do próximo, não gastar tempo com inveja e outros pecados, ajudar a quem precisa, tentar ajudar a quem não precisa, praticar ações que visem o bem, não julgar... é muito mais fácil frequentar a igreja, o templo, o centro e participar de um abaixo-assinado do que ser uma pessoa que traz a palavra de Deus para sua vida de forma prática, contínua e intencional.

A proibição da propaganda na Inglaterra reforça a hipocrisia. Bandidos rezam. Prostitutas também. Políticos envolvidos em escândalos também pedem a proteção de Deus. Por quê mulheres não podem pedir a Deus ajuda para ficarem mais bonitas? Todo mundo em algum momento pediu a Deus ajuda para alguma coisa "desnecessária": me ajude a emagrecer, me ajuda a conquistar aquele amor, me ajude a ganhar este sorteio, me ajude a ir bem na prova etc.

A fé deveria se sentir muito mais ofendida pela falsa moralidade do que por propagandas ou filmes feitos somente para chamar a atenção.

Assisti com um grande atraso um filme chamado Chocolate (Juliette Binoche e Johnny Depp). O filme mostra a comunidade de uma vila extremamente religiosa que reluta em aceitar a protagonista como parte de sua sociedade. A igreja tem papel fundamental na trama e é usada para conduzir a população, por meio da manipulação dos sermões pelo prefeito - ícone da moral e dos bons costumes.

O filme termina com final feliz, mas o útlimo sermão traduz um pouco mensagem que quero passar.

Este último sermão não é manipulado pelo prefeito e o jovem padre se vê forçado a improvisar. Como ele havia feito sermões tendenciosos sem concordar por um bom tempo, faz um breve sermão onde diz que devemos deixar o lado divino de Cristo e considerar seu lado humano e continua afirmando que o bom cristão deve ser inclusivo, tolerante e menos rigoroso.

Pessoalmente acredito que Cristo não pode ser dissociado de seu lado divino, mas que é fundamental traduzirmos seus ensinamentos de forma prática e construtiva. Gerar guerras em nome de Deus (seja guerra com armas ou com palavras) não me parece ser a tradução mais fiel destes ensinamentos.

Seja qual fora a sua religião, evite usar Jesus como munição.




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