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Publicado em: 15/02/2012

Nasceu no sábado passado, no Hospital São Luiz, o primeiro bebê brasileiro selecionado geneticamente em laboratório para não carregar um gene doente e ser totalmente compatível com sua irmã. Maria Vitória Reginato Cunha, de 5 anos, sofre de talassemia major, uma doença no sangue que pode levar à morte. Ela passa por transfusões sanguíneas a cada três semanas e toma uma medicação diária desde os 5 meses.

Nos pacientes com talassemia major, a forma mais grave da doença, a medula óssea produz menos glóbulos vermelhos e não consegue fabricar sangue na frequência necessária, podendo causar anemias graves. A cura, no caso de Vitória, pode estar em um transplante de sangue do cordão umbilical de Maria Clara, de apenas 4 dias. A compatibilidade entre as meninas deve ser em relação aos antígenos leucocitários humanos (HLA), proteínas presentes nas células.

Selecionar embriões saudáveis para tentar salvar a vida de um outro filho não é novidade. A diferença, neste caso, é que além de não carregar o gene da talassemia major, o embrião selecionado também é 100% compatível com Maria Vitória, o que vai facilitar a realização do transplante. As chances de um casal gerar embriões que sejam compatíveis e não carreguem o gene doente são de apenas 18%, diz o geneticista Ciro Dresh Martinhago.

Martinhago afirma que analisar a compatibilidade, no campo da biologia molecular, requer mais conhecimento específico do que apenas selecionar embriões sadios. “A gente coleta uma única célula do embrião para fazer a análise molecular. Ao todo, verificamos 11 regiões do DNA da célula, sendo duas relacionadas ao gene alterado e nove relacionadas à compatibilidade, que é mais complexa”, diz o médico, diretor da RDO Diagnósticos e responsável pela análise genética.

A coleta das células do cordão foi feita pela equipe do Hospital Sírio-Libanês, onde será realizado o transplante. “Há outros relatos na literatura e tem tudo para dar certo. Vamos esperar alguns meses porque, se não der certo com o cordão, podemos coletar a medula do bebê”, diz o hematologista Vanderson Rocha.

A dificuldade para aplicar a técnica e a falta de profissionais experientes nessa área são alguns dos motivos que fazem com que o método seja pouco usado. O primeiro caso de seleção de embrião 100% compatível no mundo ocorreu em 2004. Antes de decidir fazer a fertilização, o casal Jênyce Carla Reginato Cunha e Eduardo Cunha entrou em contato com pelo menos 30 médicos do Brasil e do exterior.

Tentativas
Na primeira tentativa feita pelo casal, os seis embriões gerados no processo de fertilização foram descartados ou porque tinham a doença ou porque eram incompatíveis com Maria Vitória. Na segunda tentativa, o casal conseguiu produzir dez embriões, dos quais apenas um não tinha a doença e era 100% compatível. Um segundo embrião compatível tinha apenas traços da doença (de modo que ela não se manifestaria) e também foi implantado na mãe.

“Concluímos 90% do nosso objetivo. Os 10% que faltam são o transplante, que vamos deixar nas mãos de Deus. Se não tivéssemos persistência, fé e coragem, não estaríamos aqui”, conta Jênyce. Presidente da Associação Brasileira de Talassemia, Merula Steagall diz que a entidade está comemorando a conquista. “É uma porta que se abre e representa uma esperança para outras doenças.”

O presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, Artur Dzik, também considera o nascimento de Maria Clara uma conquista. “É mais um avanço da ciência na área da medicina reprodutiva que só veio para o bem. E também é uma forma de medicina preventiva.”




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