AECambuí
Associação Empresarial de Cambuí






QUEM SOMOS | SERVIÇOS | ASSOCIADOS | PROFISSIONAL AUTÔNOMO | EMERGÊNCIA CAMBUÍ | CONTATO
Ligue para AECambui » (35) 3431-2772
» Revista "O Empresário"
» Banco de Currículo
» Últimas Notícias
» Comportamento.
» Comunicação
» Conselhos Úteis
» Consultas Boa Vista Serviço - SCPC
» Finanças ao seu alcance
» Jurisprudência
» Momento Empresarial
» O que é Boa Vista SCPC?
» Oportunidade de Emprego
» Serviços Prestados - AECAMBUÍ
» Vida saudável
» Turismo
» Fotos da Cidade
» Fotos dos Cursos
» Memória Viva



Publicado em: 08/04/2011

Na periferia do Rio, 12 crianças são assassinadas por uma pessoa indiscutivelmente desequilibrada. Esta é a chave para vermos novamente alguns comportamentos, infelizmente, muito conhecidos.

Começamos com a cobertura ansiosa e sufocante da mídia. Sem dúvida o assunto gera perplexidade e atrai interesses, mas o circo formado ao redor dos fatos impressiona. Em minutos, os grandes portais já exibem dezenas de reportagens. Junto com as emissoras de rádio e TV, dão boletins continuamente atualizados. Antes do pôr do sol, já havia textos variados sobre o assassino, sua ação, possíveis motivações e sua carta, informações sobre as vítimas e seus amigos e parentes, e até mesmo matérias com amigos de escola do assassino.

Em meio ao ritmo alucinante em que os fatos eram divulgados, outro ser típico das tragédias surgia onde houvesse oportunidade: o especialista! Não importa o que aconteça, sempre haverá um especialista no assunto. Eles teorizam sobre a queda dos aviões, inclinações de curvas nas estradas, calibragem de radar de velocidade, variações da bolsa, desvios psicológicos que motivam crimes, cenários políticos, doenças, culinária… a lista não tem fim. Então lembro que existem sempre múltiplas verdades para o mesmo fato e, quase sempre, a "verdade verdadeira" passa longe das teorias de folhetim. Mesmo assim, o especialista nunca pode faltar.

Em um dado momento, parentes do criminoso começam a ser tomados como ameaças pela sociedade agitada, como se os atos de uma pessoa se irradiassem para seus familiares. A razão, quase sempre escassa, é sepultada de vez. A polícia quase impede que os parentes existam, por medo de um linchamento. E a população, balançando a cabeça em presépios, deve engolir sua fúria com gosto de frustração por não poder "fazer justiça", desintegrando um parente do assassino de forma medieval.

Entre as pessoas que sigo no Twitter, uma delas resgata a história e questiona se o lobby pró-armas do referendo do desarmamento tem culpa na chacina de Realengo. Viro-me para a TV e o secretário da educação e cultura do estado do Rio diz que o responsável pelas mortes entrou na escola, armado, de casaco, porque não havia porteiro na escola. Os "amigos" de escola do assassino lembram que ele era o "bobão" da sala e que era "zuado" (sic) por todo mundo. Outro punhado de pessoas inteligentes e politizadas (por favor, estou sendo cínico) criticam religiões, crenças e culturas, apedrejando o Islã, Muçulmanos, extremistas, terroristas ou qualquer outra palavra que tenham ouvido que não se encaixem em seu vocabulário cotidiano ou na sua forma de ver o mundo.

Como serão os próximos dias?

O crime será assunto em todos os lugares. Fatos se misturarão à fantasias e exageros. Uma versão deformada da tragédia se fixará na mente das pessoas por algumas semanas, até que o assunto caia na vala comum reservada a outros capítulos bizarros das páginas policiais como o crime de Suzane Richtofen, a morte de Isabela Nardoni, a tragédia com João Hélio Fernandes, o garoto arrastado por um carro em 2007, ou ainda, a operação mal sucedida da polícia de São Paulo, que culminou na morte da adolescente Eloá, vítima de seu ex namorado.

Com tudo ainda fresco, a esquizofrenia (provável distúrbio do criminoso) será a doença da moda, explorada em entrevistas ou nas capas de revistas. Talvez algum livro sobre o assunto entre na lista dos mais vendidos.

A população fará protestos com cartazes, flores, cruzes ou outro símbolo qualquer. Passeatas. Políticos com os olhos brilhantes aproveitarão a oportunidade para dizer que é hora de dar um basta, mesmo que o único basta que sejam capazes de dar seja para o trabalho sério, voltado ao bem coletivo (isso dá muito trabalho).

Enquanto nos primeiros dias programas eram cancelados para manter o plantão no ar, em menos de um mês o assunto sequer será citado. Ainda nos primeiros dias após a tragédia, programas matinais desfilarão depoimentos de parentes das vítimas, de autoridades policiais ou políticas, de especialistas (olha eles aí) para, pouco tempo depois, voltarem às suas receitas culinárias ou merchandising anti celulite.

Tudo isso é muito triste.

A dor imposta aos pais das crianças assassinadas não pode ser medida pelas escalas que conhecemos. A impotência e o vazio que os habita neste momento são áridos, cortam suas almas. Nada e nem ninguém, a não ser sua própria força interior, os fará superar os acontecimentos. Aos que sobreviverem, a profundeza das cicatrizes sempre estará lá para lembrar quão vil pode ser um ser humano. O torpor que os consome os fará ignorar a miríade de besteiras parasitárias que se multiplicam a cada tragédia.

Já a sociedade como um todo irá desperdiçar uma oportunidade para evoluir, afinal, o caminho da mediocridade é muito mais tranquilo.

Ao invés de calar e refletir, vomitem teorias e soluções simplórias antes mesmo de tomarem fôlego. Coloquemos porteiros em todas as escolas! Estacionemos viaturas em cada portão! Copiemos a neurose norte americana e instalemos detectores de metal em cada acesso! Câmeras no banheiro já! Certamente o problema se resume à falta de equipamentos e pessoal.

Ao invés de buscar a compreensão das inúmeras variáveis que compõem quadros complexos como este, vamos culpar o lobby pro armas e coisificar qualquer ameaça: é mais fácil lutar contra coisas do que contra a complexidade do ser humano. Vamos criticar armas… mas critiquemos também carros, tacos de beisebol, chaves de fenda, bebidas alcoólicas (cujo consumo, além de matar, também motiva crimes) e até lâmpadas fluorescentes. Por quê complicar?

Em vez de buscar as raízes do desequilíbrio e entender que algo nesta intensidade e proporção vem de muito antes, é mais fácil pegar atalhos e tratar tudo como um fato isolado, momentâneo, imediato e ocasional. Deixemos a educação de nossos filhos somente ao encargo das escolas ou da TV. Não lhes passemos valores simples, porém complexos, como honestidade, respeito, justiça. Incentivemos o egoísmo, a discriminação, não somente com nossas palavras, mas também com nosso comportamento. Jogar lixo no lixo é trabalhoso. Devolver troco errado é coisa de idiotas. Não usar o acostamento em engarrafamentos atrasa a viagem. Só os babacas respeitam regras!

Ao invés de se indignar com escândalos, corrupção e comportamentos impróprios que prejudiquem a coletividade e usar nossa consciência e atitude para repudiar aquilo que nos destrói, vamos nos sentar confortavelmente após o jantar e rir das mazelas e infelicidades dos personagens de novela (de onde estes autores de novela tiram suas idéias?). A ficção nos alivia e, no fim, o mocinho sempre vence. Se a dose for insuficiente, misture um Globo Repórter especial, uma revista Veja fresquinha e um pouco de água com açúcar e tudo se resolve. Assepsia garantida!

Agindo assim, continuaremos sendo a sociedade civilizada que temos sido nas últimas décadas.

Satisfação garantida ou sua dignidade de volta!





AECambuí - Associação Empresarial de Cambuí
Agência WebSide