Dia desses vi uma reportagem sobre um americano de 70 anos aproximadamente que domava cavalos como ninguém e em poucos minutos transformava um cavalo selvagem num dócil animal. Qual era a técnica senão o respeito e a não violência no trato com o animal.
Contou o americano que seu pai, um policial, usava de extrema violência para domar cavalos. Referiu que as pancadas eram contra o os animais e contra si também, pois era obrigado a ajudar o pai nesta tarefa árdua. O filho e os animais eram violentamente agredidos e antes de atingir seus doze anos já trazia no corpo inúmeras fraturas em decorrência das agressões deixadas pelas pancadas que levou do pai. Cicatrizes no corpo e na alma. Marcas para uma vida toda.
Contrário ao método usado pelo pai, este americano desenvolveu uma técnica baseada no respeito com o animal a ser domado. Mesmo empregando de energia, mas sem pancadas e sem gritos estressantes. No fim do tempo estipulado pelo domador para aplicar a técnica, o cavalo o seguia e obedecia docilmente. Era um outro animal.
Trazendo para nossas vidas é possível observar que a violência traz recordações dolorosas e em vez do respeito, o medo e a indignação. Marcas para uma vida toda, pois este homem do qual falamos refere-se não esquecer das pancadas que levava juntamente com os animais que eram domados.
Lembrança da violência de pais contra os filhos, dos filhos contra os pais, contra idosos, contra mulheres, contra as chamadas minorias, contra os animais, enfim... Violência física ou psicológica e outras. Toda forma de violência deve ser condenada e todas as formas de vida merecem respeito.
Trago estes temas e relaciono com casos de crianças e adolescentes institucionalizadas que atendia. Lembro de um caso de uma garota de cerca de sete anos de vida, linda, inteligente e vitima da mãe. Em entrevista relatou que ficava dias trancada num quarto sem banho e tendo que fazer suas necessidades fisiológicas numa bacia.
Inocentemente referiu que a mãe fazia isso para educá-la, pois era muito danada. Era o que a mãe alegava para tais atos insanos. Esta criança falava com muita naturalidade que a mãe teria aquecido uma colher e colocado em sua mão e no dia de seu aniversario teria “estourado a bolha”, como se fosse algo comemorativo. A situação chegou ao extremo e a criança foi encaminhada para acolhimento institucional. Apesar de tudo isso a garota não condenava a mãe e referia por onde passava que a mãe queria apenas educá-la para vida.
A única reclamação da criança era quanto ter que ficar numa instituição que considerava uma prisão, mas se fazia necessário para protegê-la.
Absurdos acontecem em nome de educar os filhos para vida ou mesmo de forma gratuita, por nada ou pelo simples prazer de submeter às pessoas a humilhação e a dor. Não acontece apenas com as crianças como já disse, mas com aqueles que achamos que temos poder sobre eles. Contra aqueles que na maioria das vezes divide tempo e espaço conosco.
História triste que nos traz ensinamentos: pessoas e bichos aprendem com bons exemplos e com respeito. A energia empregada deve ser positiva e que tenha sentido para o outro. Não podemos achar que o outro tenha que ser aquilo que não somos capazes de ser.
Este homem transformou o sofrimento em algo que o elevou como ser humano. Uma bela história de alteridade. Foi capaz de entender e se colocar no lugar do outro, mesmo que este outro fosse diferente de si. Mas, este outro é uma vida pulsante e que merece toda dignidade possível.
Colocar-se no lugar do outro, talvez seja nosso melhor aprendizado com esta história.