Contra o vírus, não há escudo melhor do que um sistema imunológico fortalecido e alerta. "Depende dele a forma como as células de defesa reagirão aos milhões de microrganismos que entram em contato com o corpo diariamente", diz o gastroenterologista Dan Waitzberg, professor da Universidade de São Paulo. Tudo é uma questão de quanto se tem de reserva de proteínas, carboidratos, vitaminas e sais minerais - os alimentos do sistema imunológico.
Boa parte desses nutrientes vem do que se come. É comum, no entanto, recorrer a suplementos, chás e medicamentos fitoterápicos que prometem potencializar a ação de defesa das células e ajudar a que se passe incólume pela estação da gripe. VEJA ouviu médicos, nutricionistas e nutrólogos sobre o que, de fato, funciona - e o que não passa de mito.
Vitamina C
O que se diz: por suas propriedades antioxidantes, doses extras de vitamina C, em forma de suplementos, fortalecem o sistema imunológico.
O que se sabe: não é verdade. De fato, o poder antioxidante da vitamina C evita que os radicais livres ataquem as células de defesa, mas o organismo só consegue absorver 100 miligramas da vitamina por dia -e isso se obtém facilmente nas refeições diárias. "Dificilmente alguém tem déficit de vitamina C", diz o infectologista Artur Timerman.
Além dos 100 miligramas diários, que vêm de pequenas quantidades de frutas, folhas e legumes, o que for consumido em comprimidos ou cápsulas é eliminado pela urina. Cuidado! Ao ser metabolizado pelo organismo, o excesso de vitamina C pode aumentar o risco de cálculo renal. Na forma efervescente, que contém gás carbônico, o suplemento pode ainda irritar o estômago e agravar quadros de gastrite.
Chá de alho
O que se diz: além de fortalecer o sistema imunológico, tem ação anti-inflamatória.
O que se sabe: não funciona. "Apesar das 25 substâncias com propriedades terapêuticas presentes no alho, não há estudos que comprovem os benefícios para o sistema imunológico do uso esporádico concentrado.
O certo é consumi-lo regularmente", diz Dennys Cintra, professor de nutrição da Universidade Estadual de Campinas. Cuidado! Em excesso, o alho pode potencializar a ação de anti-hipertensivos e provocar uma queda acentuada na pressão arterial.
Chá-verde
O que se diz: tem ação antioxidante e, por isso, fortalece o sistema imunológico
O que se sabe: "O principal benefício dos chás é a ingestão de líquidos, sobretudo no inverno, quando as pessoas bebem menos água", diz Artur Timerman.
A falta de hidratação adequada deixa a mucosa do sistema respiratório mais espessa, propícia para a cultura de bactérias e vírus. O chá-verde é rico em catequina, poderoso antioxidante que combate os radicais livres (aliás, nesse quesito, o chá branco é ainda melhor). Cuidado! Por ser rico em cafeína, o chá-verde não é aconselhável para quem sofre de insônia ou tem gastrite e úlceras.
Zinco e selênio
O que se diz: esses nutrientes fortalecem o sistema imunológico ao estimular a produção de enzimas que atuam como antioxidantes.
O que se sabe: não funcionam. O consumo de cápsulas de zinco ou selênio é indicado apenas como complemento nutricional para quem tem déficit desses elementos, como idosos e pessoas cuja dieta é composta basicamente de fast-food. O excesso desses nutrientes é eliminado pela urina.
Iogurte com probióticos
O que se diz: em contato com as células de defesa do intestino, os probióticos induzem uma reação imunológica, o que fortalece o mecanismo de defesa do sistema digestivo. Isso estimula uma resposta harmônica em todo o organismo, fortalecendo também as células de defesa de outros órgãos.
O que se sabe: funciona. Mais eficazes, as células de defesa evitam a proliferação de agentes invasores, como os vírus da gripe e do resfriado, na mucosa do trato respiratório. "O consumo diário de 100 mililitros é suficiente para trazer benefícios ao organismo", diz o cientista de alimentos Guilherme Pádua Rodrigues.
Cuidado! Diabéticos não podem consumir iogurtes com sacarose. O alimento também é contraindicado a alérgicos às proteínas do leite.
Chá de mel, própolis, limão e agrião
O que se diz: a infusão desses alimentos aumenta a resistência do organismo a gripes e resfriados.
O que se sabe: não é verdade. Como a vitamina C é pouco resistente ao calor, o limão, ao ser aquecido na forma de chá, sofre perda significativa do nutriente.
Com ação anti-inflamatória, mel e própolis apenas aliviam sintomas da gripe. O agrião, além de expectorante, é broncodilatador e aumenta a capacidade respiratória, mas só para quem já está doente. Resumindo: a combinação desses ingredientes pode aliviar os sintomas da gripe, mas não evita a ação do vírus.
Chá de gengibre
O que se diz: estimula a atividade dos leucócitos - as células de defesa do organismo.
O que se sabe: não funciona. Embora a propriedade anti-inflamatória do gengibre promova alívio dos sintomas da gripe, não há estudos que comprovem a ação preventiva do alimento no fortalecimento do sistema de defesa do organismo.
Atividades físicas
O que se diz: o exercício físico previne gripes e resfriados e até ajuda a tratar os sintomas das doenças
O que se sabe: é verdade, em parte. Os exercícios praticados regularmente fortalecem o sistema imunológico ao aumentar a oferta de oxigênio para as células e estimular o organismo a produzir enzimas com ação antioxidante. Além disso, a atividade física melhora o desempenho cardiorrespiratório - quando se respira corretamente, o corpo elimina melhor vírus e bactérias que poderiam contaminar o sistema respiratório. Durante a gripe ou o resfriado, porém, os exercícios sobrecarregam o organismo debilitado. "Eles exigem uma energia que deveria estar voltada para o combate ao vírus", explica Artur Timerman.
Equinácea
O que se diz: o fitoterápico é um imunoestimulante natural.
O que se sabe: não existem estudos científicos que atestem a atuação da equinácea no fortalecimento das células do organismo. Cuidado! A equinácea pode desencadear reações graves nas pessoas que apresentam algum tipo de alergia, seja respiratória ou dermatológica.
Levamisol
O que se diz: o medicamento, utilizado para tratar verminose, estimula o sistema imunológico.
O que se sabe: não é verdade. Embora a substância atue na proliferação de linfócitos, células de defesa do organismo, nenhum estudo comprovou que o remédio traga algum benefício efetivo ao sistema imunológico. Cuidado! Como todo medicamento, o levamisol possui contraindicações e não deve ser misturado a bebidas alcoólicas. Não é recomendado a quem usa anti-hipertensivos e anticoagulantes.