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Publicado em: 31/07/2026

Intuitivamente, sabemos algo que durante séculos a ciência tentou ignorar: viver é uma experiência corporal

Observe algumas expressões que usamos todos os dias:

“Estou com um nó na garganta.”
“Senti um frio na barriga.”
“Meu coração vai sair pela boca.”
“Fiquei sem respirar.”
“Isso me deu uma dor no estômago.”

Curiosamente, quando queremos explicar nossas experiências importantes, recorremos quase sempre ao corpo.

Nunca dizemos que nossa amígdala cerebral ficou hiperativada. Nem que o córtex pré-frontal entrou em conflito com outra região do cérebro. Falamos do coração, garganta, da barriga, da respiração, do peito.
Intuitivamente, sabemos algo que durante séculos a ciência tentou ignorar: viver é uma experiência corporal.
Talvez por isso exista um conselho que sempre me incomodou.

Diante de uma decisão importante, alguém inevitavelmente diz:

“Não deixe a emoção tomar conta.”

A frase parece sábia. Mas há um problema. Ela é biologicamente impossível. Você não consegue impedir que uma emoção aconteça! Ela simplesmente acontece. Muito antes de você decidir qualquer coisa.

Não existe um botão de desligar emoções. Não existe um quarto onde possamos trancá-las até o fim da reunião de diretoria. Não existe um interruptor que permita dizer:

“Agora não. Volte daqui a duas horas.”

A emoção é uma resposta automática do organismo diante da vida e do viver. Ela pertence ao corpo antes de pertencer à razão.
Foi justamente essa compreensão que António Damásio ajudou a recolocar no centro da ciência, corrigindo uma tradição inaugurada há cerca de quatro séculos pelo dualismo de René Descartes.
Durante muito tempo aprendemos a imaginar razão e emoção como adversárias. Como se uma precisasse vencer para que a outra desaparecesse.
Damásio mostra exatamente o contrário. O cérebro não trabalha para separar corpo e mente, mas para integrá-los.
É aqui que uma distinção muda completamente nossa forma de compreender liderança, carreira e comportamento humano.
Emoção e sentimento não são sinônimos. A emoção é o que acontece primeiro. Ela é uma reação biológica. O coração acelera, a respiração muda, os músculos tensionam, os hormônios são liberados. O corpo inteiro reorganiza seu funcionamento antes mesmo que você consiga explicar o que está acontecendo.

Depois vem o sentimento: a experiência mental dessa emoção. É quando a mente observa aquilo que o corpo acabou de produzir e constrói uma narrativa sobre aquela experiência.

O corpo reage. A mente interpreta.
Essa sequência acontece em frações de segundo. Mas ela muda tudo.
O comportamento não nasce diretamente da emoção. Nasce da forma como interpretamos essa emoção.
Duas pessoas podem experimentar exatamente a mesma reação fisiológica antes de uma apresentação importante. Ambas terão o coração acelerado, mãos suadas, respiração alterada.

Uma concluirá:
“Estou preparado.”

A outra dirá:
“Vou fracassar.”

A emoção era praticamente a mesma. O sentimento construído foi completamente diferente. E foi essa interpretação que definiu o comportamento.
Talvez seja exatamente aí que esteja a competência mais importante de um líder. Não eliminar emoções, pois isso é impossível. Mas aprender a reconhecê-las antes que elas se transformem em decisões automáticas.

Compreender (e não expulsar) as emoções
Quando consigo perceber o que meu corpo está me dizendo, crio um pequeno espaço entre a reação e a ação.
É nesse espaço que nasce a consciência. E consciência transforma nossa realidade. É nela que integramos aquilo que o corpo sente, o que a mente interpreta e aquilo que a história da nossa própria vida nos ensinou sobre quem somos e sobre quem desejamos ser.
É essa integração que permite construir uma narrativa coerente sobre nós mesmos.

Não se trata do ego no sentido popular da palavra, associado à vaidade ou à arrogância. Trata-se de uma identidade suficientemente organizada para reconhecer o que acontece dentro de si sem ser completamente dominada por isso.
Essa talvez seja uma das maiores contribuições da neurociência para a liderança contemporânea. Não somos seres racionais ocasionalmente emocionados. Somos organismos vivos que pensam.
Nosso cérebro não foi projetado para expulsar as emoções. Foi projetado para lhes atribuir significado.
Essa diferença muda profundamente a forma como lideramos pessoas.

Durante décadas ensinamos líderes a controlar emoções. Talvez devêssemos ensiná-los a compreendê-las, dado que toda organização é feita de gente. E pessoas não chegam ao trabalho deixando o corpo estacionado do lado de fora da empresa. Levam consigo suas emoções, seus sentimentos, sua história e sua fisiologia.
Quanto antes compreendermos isso, mais próximos estaremos de uma liderança humanamente eficaz.
O futuro da liderança não pertencerá a quem consegue esconder as emoções. Mas a quem aprende a escutá-las antes de decidir o que fazer com elas.

Por: Rogério Chér


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